A Voz da Árvore

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Não me maltrates, porque Deus castiga,
Aquele que me fere é ingrato e impuro,
Sou a macia sombra que te abriga
E o ar que tu respiras, leve e puro.

Sou o albergue do pária nos caminhos,
E como tu, padeço, sonho e penso,
E sou também jardim — jardim suspenso —
Onde se orquestram as canções dos ninhos.

Homem, ao Céu levanta a tua prece,
E agradece ao Senhor, clemente e eterno;
Nas longas noites úmidas de inverno,
Sou o calor em que o teu lar se aquece.

Fazer o bem me empolga e me consome,
Ser o teu teto, ser a tua rede,
Ser a linfa que te mitiga a sede,
E ser o fruto que te mata a fome.

Na minha fronde cantam esperanças,
Como os pássaros trêfegos, contentes;
Feliz, eu sou a cama em que descansas,
E em que dormem teus filhos inocentes.

Se dos meus frutos ricos te alimentas,
E respiras o odor das minhas flores,
Tantas vezes acalmo as tuas dores,
Sendo o braço das tuas ferramentas.

Procuro distrair-te da tristeza,
E defender-te do tufão que arrasa,
Não te esqueças que sou a tua mesa,
E que também sustento a tua casa.

Sou bordão em que velho tu te amparas,
Sou o berço dos teus primeiros dias,
E a viola que soluça, em noites claras,
O rimário das tuas fantasias.

Sou o papel, a nobre e eterna ponte,
Que liga o acaso ao fúlgido arrebol,
Jornal, eu levo a vida ao vale, ao monte;
Livro, sou a arte, a ciência, o pão, o sol.

Dei-te do cerne rude do meu peito
Os barcos com que tu singraste os mares;
Sou a imagem do teu ideal perfeito,
Entalhada na cruz dos teus altares.

Se morres, como é igual a nossa sorte,
Eu sou a tua verdadeira amante,
Eu sou o teu caixão, e fiel, constante,
Parto contigo para a própria morte.

Salomão Jorge – 1902/1992
Arabescos / Poesias – 1918/1928 – SP