O CRIADOR SABIA O QUE ESTAVA FAZENDO

Dos 65 jornalistas do Brasil e do exterior que tentavam o feito, apenas 3 chegaram: o Nestor Leite, do jornal “O Globo”, o José Pinto e eu.

Depois de ter feito o mundo em seis dias, o Criador descansou. Mas no oitavo dia percebeu, na sua infinita visão, que estava faltando alguma coisa. E foi aí que deu início à formação da Amazônia. Iniciou mas não acabou ainda, embora a tenha povoado de índios, árvores, flores e bichos. Tudo de uma forma luxuriante.

Não acabou porque o dia do Criador é diferente do dia que a gente conhece. Dura milênios ou bilênios. É por isso que insisto: a Amazônia não está pronta. Nada nela é definitivo.

O ano, como nós o concebemos, só tem duas estações: Inverno e Verão. As duas com a mesma quentura e a mesma duração de seis meses, só variando no chover e não chover. No Inverno (Dezembro-Maio) chove todos os dias.

Os rios transbordam, a vegetação vira uma farra. No Verão é o contrário: não chove nada. O desnível dos rios entre uma e outra estação chega a 10, 20, 30 e até 40 metros. É de se ver.

Como o Criador continua trabalhando a sua obra, o solo também não está pronto: 95% ou mais de sua constituição é arenosa, como se fosse um fundo de mar puxado pelo levantamento dos Andes.

O índio, antes do Descobrimento, utilizando somente machado de pedra e fogo, não fazia três colheitas no mesmo lugar. No primeiro ano era aquele farturão; no segundo, caía pela metade; no terceiro, nada. Aquelas árvores gigantescas são desprovidas de “pião”.

O seu sistema radicular é de superfície, alimentando-se da decomposição das folhas. Se não estivessem apoiadas uma nas outras, formando um paredão, tombariam com qualquer ventania. Sendo madrasta, a Amazônia também sabe ser generosa.

Além de pulmão do mundo, esconde nas suas entranhas fantásticos recursos minerais. Mais: nas suas florestas encontram-se remédios para inúmeros males que atormentam a saúde do Homem.

Para ela, hoje, voltam-se as atenções dos pesquisadores, buscando soluções que imaginavam obter artificialmente, uma competição inútil com o Criador. É preciso conhecer os seus segredos.

Uma vez, com José Pinto, no início da década de 50, procurando, como repórteres da revista “O Cruzeiro”, chegar ao local em que caíra um avião de passageiros da Panamerican, matando todo mundo, lá nos cafundós do Pará, numa serra de nome meio imoral, chamada Tamanacu, teríamos de atravessar 125 quilômetros de selva sem rios nem riachos.

Dos 65 jornalistas do Brasil e do exterior que tentavam o feito, apenas 3 chegaram: o Nestor Leite, do jornal “O Globo”, o José Pinto e eu.

Cruzamos aquele ermo arrancando para beber a seiva do cipó-de-fogo e do cipó-de-cruz. Ambos guardavam nas suas entranhas a água que nos permitiu viver e avançar. A Amazônia relembra os Irmãos Villas Boas — Leonardo, Cláudio e Orlando — e os jovens oficiais da FAB que integravam o Correio Aéreo Nacional — o nosso CAN.

Os primeiros, na mesma medida de Rondon, entregaram-se por inteiro à preservação da vida e aos costumes indígenas.

Os segundos garantiram a soberania Brasileira naquele universo, costurando-o em todos os seus quadrantes. Foram eles, inclusive, que operaram o milagre — fato único na História — de fazer com que o nosso caboclo saltasse da canoa ou dos próprios pés para o avião, sem conhecer o cavalo, a roda da carroça, do carro-de-boi, do automóvel ou do caminhão.

Enquanto o Criador modelava a Amazônia, resolveu colocar esses meninos como seus embaixadores.

O Criador sabia o que estava fazendo.

Jorge Ferreira
Jornalista – SP – Cerqueira César
Sítio Donana – Maio/1998